Lugar de Mulher é na Atlética!

“Desde 2011….” a participação feminina no ambiente esportivo universitário no RJ vem aumentando em escala considerável. Razões para isso não faltam: vão desde um maior posicionamento sobre questões de gênero dentro das Associações até mesmo ao fato das próprias mulheres estarem se empoderando, se impondo e indo em busca da ocupação desses espaços majoritariamente ocupados por homens.

Foi-se o tempo que a tal famosa “salinha” da Atlética era um ambiente intimidatório e fazendo o espaço ser o menos preferido entre as alunas dentro da faculdade. Diversos são os relatos de meninas que tiveram um impacto negativo ao adentrar nesses ambientes, que muitas vezes prejudicavam as próprias Atléticas na busca de atletas para seus times femininos. Atualmente, embora ainda longe do ideal, percebemos uma mudança nítida de comportamento nesses espaços, dando cada vez mais força à luta pela equidade entre gêneros.

Seguindo essa onda de maior participação feminina nos espaços, a AAAEP vem se tornando um ótimo exemplo de que é possível se ajustar às mudanças na sociedade e ir em busca de um ambiente universitário mais justo para todos e todas. 

Desde o início da gestão 2016/2017 a AAAEP passou a se preocupar e discutir mais questões de opressão dentro da própria entidade e a forma como alguns comportamentos, mesmo que não intencionais, propagavam ideias erradas para a torcida e para os seguidores da Atlética de forma geral. Aos poucos a gestão foi discutindo e tomando conhecimento de diversas atitudes que poderiam ser tomadas internamente, como a alteração ou exclusão de algumas músicas antigas de cunho opressor e até mesmo parceria com o coletivo de mulheres da faculdade, o ComCiência Femininacom o objetivo de inserir a discussão dentro da Atlética e auxiliar os membros no processo de desconstrução de determinados valores historicamente enraizados. A partir disso a mudança no comportamento foi acontecendo naturalmente e, consequentemente, o que antes era propagado à torcida de forma opressora passou a servir de exemplo acerca da responsabilidade que a Atlética tem em coibir atitudes e discursos machistas, racistas e lgbtfóbicos.

Primeira Presidenta da AAAEP

O processo de mudança na Atlética  é nítido. E no ano de 2018 um evento inédito demonstrou a força dessa mudança: eleição da primeira presidente mulher na AAAEP. Em gestões anteriores apenas duas mulheres haviam ocupado cargos na presidência, como vice presidentes, Rafaella Moritz em 2012 e Camila Grangeia em 2016. Há quem acredite que uma presidente mulher não tenha força,  voz, não saiba liderar, não sabe tomar decisões difíceis ou ter o “pulso firme” necessário nas plenárias e reuniões importantes.

Tainah Dias, primeira presidente mulher da AAAEP em 7 anos

Mas a estudante de Engenharia Elétrica, Tainah Dias, chega para derrubar qualquer preconceito de gênero e mostrar que representatividade importa, e muito.

Tainah entrou na Atlética de Engenharia da UFRJ através da comissão de torcida no primeiro semestre de 2016. No período seguinte já assumia o cargo de Diretora de Comunicação e, em 2017, foi nomeada Diretora Administrativa da gestão. Até que em 2018 foi eleita primeira presidente da instituição. A importância de ter uma mulher no cargo mais alto de liderança da instituição representa toda a luta que se vem travando ao longo das gestões e, além de ter um significado bastante especial na história da AAAEP, indica que estamos no caminho certo.
Em se tratando de representatividade, a gestão de 2018 é a que tem o maior percentual de mulheres integrantes da instituição.  Com isso abrem-se portas para que o cenário seja o mais promissor possível futuramente, dando mais oportunidades às mulheres de liderar o cenário esportivo universitário. Vale ressaltar que além da AAAEP, outras Atléticas da Engenharia já possuem ou possuíram presidentes mulheres em sua história, como a UFF,  PUC e CEFET. O que reforça a ideia de que mulher pode e deve ter papel de liderança. 
 
 

A estudante contou um pouco sobre a experiência e o desafio que terá pela frente liderando uma das maiores Atléticas Universitárias do Rio.

Qual a importância da Atlética de Engenharia ter uma mulher como presidente após longos 7 anos de reativação?
Bem, a Engenharia foi por muito tempo dominada por homens. Atualmente temos a maioria masculina exercendo a profissão, mesmo tendo um grande crescimento do número de mulheres na área. Olhando pelo lado do esporte também vejo um maior público adepto, vamos dizer assim, Masculino. Uma mulher na atlética de engenharia hoje, depois de 7 anos dominada pelos homens só reflete esse crescimento e inserção das mulheres em campos que antes eram vistos totalmente Masculino. Mostra que uma mulher não só pode gostar e cursar engenharia ou gostar e praticar esporte, como também pode comandar uma área que une essas duas coisas vistas como “coisa de homem”.
O quanto você acha que o esporte universitário ainda tem que melhorar na questão de equidade entre gêneros?
Acho que já avançamos bastante em muitos aspectos, pelo menos nesse meio universitário vejo bastante equidade de gêneros. O que falta é o incentivo, por parte da sociedade, da família que seja, em uma mulher procurar o esporte como hobby. Hoje temos poucas mulheres como atleta, o que faz as poucas que treinam com a gente ter que competir em mais de uma modalidade.
Na sua visão ainda há muito o que melhorar na Atlética daqui pra frente no que diz respeito a questões de opressão?
Sempre tem né? Se não houvesse o que crescer hoje o fato de eu ser a primeira mulher presidente da atlética não seria uma novidade nem inusitado pra ninguém. Já avançamos bastante no que diz respeito a torcida com musicas misóginas e machistas desde o ano passado. Mas acredito que com uma mulher no comando tudo caminhara mais rápido nesse sentido.
 

Força feminina refletida nos números

Embora a luta pela equidade não se trate de uma competição entre homens e mulheres, é possível analisar o desenvolvimento e avanço esportivo através da evolução nos resultados femininos em competições alvo da Atlética como, por exemplo, o Intereng.

Na primeira edição do campeonato (2011) os times femininos tinham uma adesão muito baixa, fazendo com que praticamente as mesmas meninas treinassem e competissem todas as modalidades. Na época era tudo muito novo e tinha-se uma espécie de “time geral feminino” da Engenharia UFRJ que rodava os 4 dias de campeonato jogando tudo. Apesar disso, as mulheres “levaram o geral nas costas”, sendo mais da metade dos pontos atribuídos às modalidades femininas (*a análise não levou em consideração o Futebol de Campo, por ter apenas a modalidade masculina). Nas competições que se sucederam houve uma maior busca pelo recrutamento e reforço dos times femininos com o intuito de melhorar ainda mais os resultados. Atualmente os resultados se equiparam em termos de pontuação geral, mas vem-se adquirindo mais qualidade esportiva em modalidades antes não tão popularizadas entre as mulheres, como o basquete feminino, por exemplo.

Falando de torcida o cenário nas arquibancadas é uma amostra da situação real dos estudantes. Na edição de 2016, dos 803 membros da nossa delegação que foi à Campos naquele ano, cerca de 60% eram homens. Em 2017 a proporção continuou na faixa dos 40% de público feminino, porcentagem que reflete muito da realidade da própria Escola Politécnica, onde cerca de 40% do corpo estudantil são mulheres.
 
Em termos de gestão a diferença é um pouco maior. No início da AAAEP, em 2011, cerca de 1/3 de mulheres estavam presentes na organização. Atualmente dos 8 cargos da Diretoria da Atlética, 4 são ocupados por mulheres. A representatividade feminina na organização da Atlética é de suma importância na luta pela equidade de gêneros e no estímulo para que cada vez mais mulheres sintam vontade de participar e construir uma Atlética cada vez mais inclusiva.
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Evolução da participação feminina em algumas gestões da AAAEP

Pioneirismo entre as Atléticas do Rio

Coletivo ComCiência Feminina em atuação na campanha “Jogos Sem Opressão”

Apesar de ser de conhecimento geral  que tais questões deveriam ser levadas mais a sério, foi somente em 2016  que a AAAEP juntamente com a Torcida Organizada Cachorrada do Fundão passou a, de fato, tomar as rédeas da situação. Uma das medidas mais significativas foi a parceria com o Coletivo ComCiência Feminina. A primeira atuação aconteceu Choppada da Atlética (“Isso Aqui é Fundão”) em 2016, na qual houve um ponto de acolhimento do Coletivo onde as meninas estavam preparadas para ouvir e tomar as medidas cabíveis em situações mais graves de abusos e/ou assédios ocorridos ao longo da festa, além disso o evento também contou rondas das meninas pelo espaço juntamente com o auxílio da segurança do local. A parceria foi recebida de maneira bastante positiva pelo público presente e sobrou elogios tanto para o Coletivo, pelo excelente trabalho, quanto para a Atlética, pela iniciativa. 

Além disso, a AAAEP tem o orgulho de ter sido pioneira entre as Atléticas de Engenharia do RJ no posicionamento contra as opressões em Jogos Universitários, levando a campanha “Jogos Sem Opressão”  à Rio das Ostras na edição dos Jogos Universitários no segundo semestre de 2016. Novamente com o apoio do Coletivo, a campanha tornou o ambiente de torcida, comumente conhecido pelo caráter “agressivo” no qual a rivalidade entre as Atléticas é expressada através de atitudes opressoras às minorias (seja por músicas ou até mesmo xingamentos dentro de quadra), mais acolhedor reforçando a ideia de que não haveria espaço para qualquer tipo de opressão no decorrer do evento.

Protagonismo feminino além da Gestão da Atlética

Além do fato histórico na presidência da Atlética, temos também outros exemplos de mulheres liderando e mostrando trabalho em outros espaços, seja na torcida, bateria ou até mesmo superando expectativas nos resultados esportivos.

No caso da Bateria da nossa Torcida Organizada Cachorrada do Fundão a participação feminina também vem aumentando ao longo dos anos. Em 7 anos de existência a Bateria Descomunal nunca presenciou a liderança de uma mulher como Diretora de bateria. Entretanto, Isadora Mendes veio para mostrar que lugar de mulher também é na cozinha*.  A futura engenheira ambiental reforça a importância da representatividade dentro da bateria:

É um ambiente que tradicionalmente é visto como “de homem”, o que não faz sentido nenhum. Nosso gênero não faz absolutamente a menor diferença na bateria, não faz com que homens tenham maior habilidade musical ou facilidade em aprender a tocar. Então por que seria uma “coisa de homem”? Não é. E a gente tá aí pra deixar isso cada vez mais claro. Nossa bateria é um ótimo exemplo disso. 

Atualmente são 24 homens e 21 mulheres distribuídos nos instrumentos da Descomunal, que realiza periodicamente Oficinas de forma a aumentar a rotatividade dos ritmistas e, de quebra, ainda extingue de uma vez por toda o mito de que mulheres só conseguem tocar determinados instrumentos. (*cozinha – termo utilizado para definir a parte da bateria onde ficam os surdos, repiques e caixas)

            Isadora e parte das meninas integrantes da Bateria Descomunal 

Outro grupo que sente na pele o peso de “ser mulher no meio esportivo universitário” é o Time de Cheerleaders da Cachorrada do Fundão. As integrantes do time brigam e defendem a paixão que, para muitas, veio a se tornar um novo esporte levado a sério recentemente. Em 2016 foi realizado o primeiro desafio de Cheerleading entre as Atléticas universitárias, evento esse que não acontecia muito pela falta de estímulo do Cheerleading como esporte.  

     Meninas do Time de Cheerleading da Cachorrada do Fundão (2016)

Na UFRJ o time começou a evoluir muito em termos esportivos e foi ganhando espaço tanto junto à Atlética quanto à torcida. “Hoje eu vejo que a galera já tem uma visão bem melhor da gente e do que a gente faz, como um time esportivo mesmo que treina, se esforça e se dedica” diz a coordenadora da modalidade, Lívia Deiró. Em meio às mudanças o time sofreu  frequentemente com o estigma da sexualização e objetificação das meninas, através de assédios, ataques verbais, na torcida ou até mesmo em redes sociais. Entretanto, a coordenadora defende que o cenário é mais favorável atualmente devido a uma série de fatores. A estudante destaca que o fortalecimento dos movimentos feministas dentro da universidade ajudou a quebrar alguns preconceitos.   

Quando entrei no time em 2015 senti que as pessoas não valorizavam a gente como esporte, muitas nem achavam que era um esporte mesmo. Nos viam como meninas que apenas dançavam na torcida e eventos da Atlética com roupas curtas – que são necessárias pro tipo de atividade. A  gente era muito sexualizada, sofríamos muito com machismo e objetificação. Acredito que isso tudo melhorou muito por conta  de uma maior divulgação do esporte, que passou a ser mais conhecido e com isso surgiram mais e mais times tanto no Rio como no Brasil todo. Apesar de todo o avanço, estamos longe do 100% e ainda temos que lutar muito contra o machismo atrelado à nossa atividade. 

A AAAEP gostaria de deixar clara a importância em respeitar e valorizar as mulheres. Vivemos em uma sociedade machista e a postura coletiva das Atléticas e perante às relações abusivas tem que acontecer. Se você presenciar alguma atitude agressiva durante os eventos universitários, interfira! Divulguem notas, façam campanhas de conscientização e não se esqueçam, denunciem! 

 

Por fim, o estímulo ao esporte feminino e todo o trabalho realizado pela Atlética da Engenharia UFRJ até aqui continuará sendo feito. Que a representatividade e força feminina nos espaços continue motivando e fazendo com que cada vez mais mulheres ocupem as quadras, baterias, tatames, piscinas e os lugares mais altos no pódio da sociedade!

 

Em tempo, falando ainda de conquistas femininas, não poderíamos deixar de reconhecer a grandiosa vitória que nossa faculdade alcançou este ano juntamente com a companheira paulista Poli-USP. Depois de 225 anos, temos pela primeira vez uma diretora mulher. Parabéns, Prof. Cláudia do Rosário Vaz Morgado, primeira Diretora da Escola Politécnica da UFRJ. 
 

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